Quando não estamos nos sentindo bem, normalmente atribuímos esse sentimento aos eventos atuais. Procuramos então “melhorar” buscando algo que alivie o desconforto e nos ajude a ter condições de lidar como os problemas, como no caso de medicamentos; ou não, alienando-nos dos problemas poupando-nos temporariamente do sofrimento, como no caso do abuso de substâncias. A terapia EMDR busca o alívio de emoções perturbadoras e a mudança de crenças limitantes para maior bem-estar e autoestima.

No caso da ansiedade, podemos dizer que o desconforto se deve a uma ativação nervosa permanente, fazendo com que a pessoa fique “ligada” o tempo todo, sentindo que precisa fazer algo para evitar algum mal real ou imaginário, mas sem a clareza de uma ação eficaz para tal. É como se estivéssemos com um pé no acelerador e outro no freio ao mesmo tempo, correndo-se o risco de fundir o motor. Na depressão, podemos supor que tais esforços para lidar com os problemas da vida foram frustrados, ou que a vida foi cruel e que há poucos motivos para continuar vivendo, fazendo com que a pessoa desista, ou que pelo menos precise de um tempo para reavaliar essa condição. Podemos dizer que a regulação deste processo de ativação e desativação é o que nos torna funcionais e saudáveis ou “doentes”. Ele é, literalmente, o piloto automático de nossas vidas…

É durante nosso desenvolvimento físico que aprendemos tais habilidades para dirigir nossas vidas, porém esse processo tem seus percalços, “falhas na programação”. A sua aprendizagem se configura no sistema nervoso como redes neurais e que tendem a se perpetuar. Elas têm sua origem no processo de amadurecimento do sistema nervoso nos primeiros anos de vida, mas que continuam a se modificar ao longo dela. Muitas vezes, tais habilidades podem ter funcionado num primeiro momento, mas podem se tornar obsoletas com a idade e desenvolvimento do ego. Por exemplo, a orientação de não falar com estranhos faz sentido quando dada a uma criança de menos de 10 anos de idade, mas pode ser muito prejudicial para um adolescente em ambiente escolar para fazer amizades, podendo desencadear transtorno de fobia social.

Neste processo de aprendizagem, temos que lidar com situações que são percebidas como potencialmente perigosas. Do ponto de vista evolutivo, funcionamos da mesma forma que qualquer outro animal que somos. Dispomos de três reações possíveis frente ao perigo que são: confrontar, fugir ou fingir-se de morto. Para enfrentar um perigo é necessário disponibilizar muita energia para uma ação decisiva. Portanto, no primeiro momento o organismo acumula energia, ele se carrega e, ao mesmo tempo, avalia a situação (freio/acelerador).

Entram logo em ação dois processos emocionais: o medo dispara mecanismos fisiológicos que aguçam a sua percepção e preparam o corpo para uma descarga energética brusca, a ansiedade provoca uma cisão que impede a descarga prematura. Com isso o organismo ganha tempo para encontrar a melhor saída e vai acumulando carga para a ação motora. As duas primeiras reações, confrontar ou fugir, ocorrem quando o organismo encontra uma saída. A ansiedade dá lugar à ação, a cisão é desfeita e a hiperativação é descarregada.

Mas quando o organismo acuado não encontra uma saída, ele fica paralisado, a descarga energética não ocorre e a cisão persiste; o organismo colapsa, mas permanece hiperativado. Tudo fica em suspenso, gerando uma série de sensações físicas incomodativas, tais como sensação de vazio, desconexão da realidade, etc. A experiência não é simbolizada (atribuição de um significado ou sentido) nem integrada às demais, pois não houve uma resolução. Os vestígios corporais hipertensos permanecem como uma memória inconsciente; o significado não é elaborado. Isso constitui um acontecimento traumático.

Hiperativado, o organismo continua buscando uma saída mesmo depois de passado o perigo real, mas cindido, sem dispor da simbolização, a pessoa não consegue elaborar a situação e a revive numa repetição exaustiva e o perigo nunca acaba. Esse mecanismo pode, por exemplo, conduzir aos esforços irracionais dos rituais no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Como um buraco na estrada, a cisão retém o tráfego e provoca um engarrafamento em seu entorno, mantendo o incidente no foco da dinâmica do organismo.

É bastante comum acharmos que não temos traumas. Realmente, a maioria não sofre de transtorno de estresse pós-traumático, mas essa mesma dinâmica dos grandes traumas se repete em menor intensidade sempre que ocorre algum nível de paralisia perante um acontecimento qualquer. Se a resposta motora permanecer suspensa, o engarrafamento permanece. Toda situação onde ocorre algum nível de paralisia repete esse mecanismo de manutenção da cisão entre a hiperativação e a sua descarga motora.

São os traumas pequenos que emperram o nosso funcionamento, diminuindo nossa qualidade de vida. Todos nós temos em nossa história muitos eventos em que ficamos sem ação, e pouco nos damos conta do quanto poderemos ganhar se pudermos resolvê-los.

EMDR

O EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing – Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares – é um método psicoterapêutico eficaz que tem ajudado milhares de pessoas em todo o mundo e de várias idades a resolverem, de forma rápida e duradoura, vários tipos de problemas psicológicos e emocionais, especialmente os ligados a traumas.

Como foi desenvolvido?

Observando casualmente que, sob determinadas condições, movimentos oculares podem reduzir a intensidade de pensamentos perturbadores, a psicóloga Francine Shapiro, desde 1987, estruturou cientificamente o EMDR como um método cujos sucessos foram publicados pela primeira vez em 1989 no Journal of Traumatic Stress.
Desde então, EMDR tem recebido diversas contribuições de terapeutas e pesquisadores em todo o mundo tornando-o um conjunto de protocolos que incorpora elementos de diferentes abordagens psicoterapêuticas.
Como funciona?

Embora não haja uma única explicação satisfatória sobre a natureza de sua eficácia, sabe-se que quando uma pessoa está alterada emocionalmente (distress) seu cérebro não pode processar informações como o faz em condições normais. Ela fica “congelada no tempo” e a lembrança de um trauma ou o contato com elementos dele pode ser tão perturbadora quanto quando ele foi vivenciado, uma vez que as imagens, os sons, cheiros, sentimentos e pensamentos ficam associados entre si, configurando um pacote traumático (rede neural), sendo que cada elemento do pacote atua como gatilho ou disparador das emoções associadas à lembrança (muitas vezes, sem a rememoração da própria lembrança).

Tais memórias costumam ter um efeito negativo e duradouro sobre o modo como uma pessoa vê o mundo e se relaciona com os outros, interferindo de forma marcante em sua vida.

O EMDR produz um efeito direto sobre o modo como o cérebro funciona. Uma sessão bem-sucedida de EMDR permite que o processamento de informações se normalize, fazendo com que as imagens, sons, sentimentos e sensações não mais sejam revividos quando o evento ou seus disparadores é trazido à memória. O evento ainda pode ser lembrado, mas seu efeito perturbador desaparece ou diminui sensivelmente.

Várias outras modalidades terapêuticas têm semelhante propósito, no entanto, o EMDR parece ser similar ao que ocorre naturalmente durante o sono REM (Rapid Eye Movement) quando sonhamos. Portanto, o EMDR pode ser visto como uma psicoterapia baseada na ativação de recursos fisiológicos que faz com que o material perturbador perca sua força dentro do psiquismo.

Mas o EMDR realmente funciona?

Vários estudos científicos têm mostrado que EMDR é realmente eficaz. O prestigiado Journal of Consulting and Clinical Psychology publicou em 1995, uma pesquisa feita por Wilson, Becker and Thinker. Nela seus autores demonstraram que 80 sujeitos portadores de TEPT – Transtorno de estresse pós-traumático – melhoraram significativamente com o tratamento com EMDR. 15 meses depois ainda sustentavam os mesmos resultados satisfatórios.

Os achados neste e em outros estudos demonstraram que o EMDR é altamente eficaz e que seus resultados têm longa duração.

Como ocorre uma sessão de EMDR?

Uma sessão começa com a identificação de um problema específico a ser focalizado. O paciente é solicitado a trazer um tema perturbador, que pode ser a lembrança de um evento ou um pensamento negativo. Procura manter em mente uma cena, um sentimento, um som, um pensamento e ainda as crenças negativas relacionados ao problema.
O terapeuta conduz uma série de estímulos bilaterais (visuais, auditivos ou táteis) pedindo ao paciente que fique atendo ao movimento enquanto este mantém em mente o material perturbador e o paciente apenas observa e relata o que quer que lhe surja a mente, sem fazer nenhum esforço para controlar, dirigir, julgar ou analisar as associações que daí surgem.

Pode-se dizer ao paciente que o trabalho é feito pelo próprio cérebro que é ativado na direção da cura. Cada pessoa irá processar suas associações de forma única, baseada em sua experiência pessoal e seus valores, sendo, portanto, importante observar que o modo correto de processar é único a cada paciente.

Os estímulos bilaterais, são repetidos até que a lembrança seja menos perturbadora e possa ser associada a pensamentos positivos e crenças sobre si mesmo, por exemplo: “Fiz o melhor que pude” ou “Estou comigo mesmo”.
Durante as sessões de EMDR o paciente pode experimentar emoções intensas, as quais são acolhidas e apoiadas pelo terapeuta, mas, ao final, a maioria reporta uma grande redução em seu nível de perturbação, oferecendo alívio, surpresa positiva ou até alegria.

Que tipos de problemas podem ser tratados com EMDR?

As pesquisas estabeleceram que o EMDR é efetivo no tratamento do Estresse Pós-Traumático, entretanto, os clínicos treinados tem reportado sucesso no tratamento dos seguintes casos:

Qual a duração do tratamento?

Uma ou mais sessões são empregadas no diagnóstico fazendo com que o terapeuta decida se EMDR é ou não a intervenção mais apropriada para o caso. O método será explicado ao paciente e, após tirar dúvidas e fornecer esclarecimentos, estando ambos de acordo, é possível então iniciar o tratamento. A sessão tem duração de 50 minutos.

A duração do tratamento será determinada pelo tipo de problema, circunstâncias de vida e quantidade de traumas que há para tratar. Em alguns casos, uma única sessão é suficiente, sendo mais comum que dure entre 3 e 10 sessões com frequência semanal ou quinzenal. O EMDR pode ser usado dentro de uma psicoterapia verbal tradicional, como uma terapia complementar, feita por outro terapeuta ou como um tratamento único.

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